
Naquele dia, em que ela já não sabe em que mês foi nem tampouco que horas seriam, naquele dia, ela arrumou os sonhos que tinha. Limpou-lhes o pó, como se limpa o pó dos livros nas estantes e arrumou cuidadosamente os sonhos que tinha para si. As coisas arrumadas tomaram o seu lugar e não deixaram a casa tão desorganizada, a vida tão desorganizada.
Ela tropeçava neles a toda a hora. É claro, eles estavam desarrumados, era fácil tropeçar neles. Mas ela tropeçava e caía, tropeçava e caía. Irritava-se porque olhava para eles e não percebia porque é que ainda não os tinha arrumado, colocado no seu lugar. Seriam pesados? Difíceis de carregar? Nem ela sabe, nem ela sabe explicar. Às vezes as pessoas diziam-lhe, cuidadosamente, eu entendo que tenhas os teus sonhos, mas é preciso arrumá-los. Tens que arrumá-los. Ela argumentava, quanto podia, que eram os sonhos dela, que embora desarrumados ela teria cuidado para não tropeçar neles. Mas tropeçou sempre. Um dia, chateada e com dores no corpo, sobretudo ali na zona onde traz a alma, apanhou-os delicadamente, limpou-os com o aprumo que merecem as coisas sensíveis e guardou-os.
Nunca mais, até hoje, ela tropeçou em qualquer sonho desarrumado. Nunca mais até hoje, ela inventou um novo.
Adorei
ResponderEliminarTanpouco
ResponderEliminarAntes de um P ou de um B é sempre um M. Tampouco e não tanpouco. De qualquer modo, obrigada.
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